Vírus Sincicial Respiratório (VSR) representa um perigo crescente para idosos, com riscos significativamente maiores de complicações graves em comparação à gripe. Especialistas pedem atenção redobrada a essa população vulnerável.
Embora o aumento dos casos de influenza A gere preocupação, o vírus sincicial respiratório (VSR) também se apresenta como uma ameaça à saúde pública, especialmente para os mais velhos. Dados recentes indicam uma ascensão na detecção do VSR, que atinge não apenas bebês, mas também representa um sério risco para adultos e idosos.
A subestimação do impacto do VSR em faixas etárias mais avançadas é um ponto crucial levantado por especialistas. A menor testagem e a dificuldade de diagnóstico em adultos podem mascarar a verdadeira extensão da doença, levando a subnotificações e a um planejamento de saúde inadequado para essa parcela da população.
A complexidade do quadro se agrava com a presença de comorbidades e o processo natural de envelhecimento, que fragilizam o sistema imunológico. Nesse cenário, o VSR pode desencadear quadros graves, exigindo atenção médica especializada e medidas preventivas eficazes. Conforme informações reunidas pelo Instituto Todos pela Saúde, na semana encerrada em 4 de abril deste ano, 38% dos testes positivos para algum vírus acusaram o VSR.
VSR: Um Risco Subestimado em Adultos e Idosos
A pneumologista Rosemeri Maurici, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destaca que os números atuais do VSR são apenas a “ponta do iceberg”. A testagem para VSR em larga escala no Brasil é relativamente recente, iniciada após a pandemia de covid-19, o que dificulta a compreensão total do impacto real da doença em adultos e idosos.
Muitos casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em hospitais podem ter o VSR como causa, mas não são devidamente diagnosticados por falta de testes ou por testes realizados fora do período de detecção. De janeiro a março deste ano, dos 27,6 mil casos de SRAG registrados, o vírus causador foi identificado em apenas um terço, com quase 17% nem sequer testados, segundo o Ministério da Saúde.
A percepção comum de que o VSR afeta apenas bebês, por ser o principal causador da bronquiolite, contribui para essa subestimação. Embora a maioria dos casos graves registrados no primeiro trimestre tenha ocorrido em menores de dois anos (1.342 de 1.651), o risco para os idosos é significativo.
Comorbidades e o Declínio Imunológico Amplificam o Risco
O envelhecimento natural, conhecido como imunossenescência, leva ao declínio do sistema imunológico, aumentando a suscetibilidade a infecções. No Brasil, esse quadro é agravado pelo envelhecimento com doenças crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares, além de hábitos de vida como tabagismo e consumo de álcool, como aponta a geriatra Maisa Kairalla.
Esses fatores tornam os idosos mais propensos a desenvolver quadros graves de diversas doenças. Dados da literatura médica, apresentados por Kairalla, revelam que um paciente idoso com VSR tem 2,7 vezes mais chance de desenvolver pneumonia e o dobro de chances de necessitar de UTI e intubação, além de maior risco de óbito, quando comparado à influenza.
Doenças Cardiovasculares, Diabetes e Respiratórias: Grupos de Alto Risco
Pacientes com doenças cardiovasculares são particularmente vulneráveis. O cardiologista Múcio Tavares ressalta que mais de 60% dos casos graves de VSR ocorrem em pessoas com alguma condição cardiovascular. As infecções virais respiratórias podem desencadear eventos cardiovasculares e cerebrovasculares, como infartos e AVCs, devido à inflamação sistêmica que causam.
Pacientes com diabetes também apresentam maior risco. O endocrinologista Rodrigo Mendes explica que a alta concentração de glicose no sangue os torna mais suscetíveis a infecções e agravamentos. Uma infecção pode gerar uma resposta inflamatória exacerbada, levando à hospitalização e a tratamentos mais complexos.
Pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma grave e DPOC, também estão em alto risco. Uma internação por VSR pode aumentar em 70% a probabilidade de morte em até três anos para esses pacientes, além de acelerar a perda da função pulmonar, conforme Rosemeri Maurici.
Prevenção e Vacinação: Um Caminho Essencial
O VSR e suas complicações podem ser prevenidos através da vacinação. Atualmente, no Brasil, as vacinas para a população adulta estão disponíveis apenas na rede privada. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece a vacina para gestantes, visando proteger os bebês nos primeiros meses de vida.
Entidades médicas recomendam a vacinação para pessoas de 50 a 69 anos com comorbidades e para todos os idosos a partir dos 70 anos. A pneumologista Rosemeri Maurici sugere que as sociedades médicas indiquem esses grupos prioritários à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por recomendar novas terapias ao Ministério da Saúde.
