Entenda como o bloqueio sobre parte dos R$ 77 milhões da premiação da Copa do Brasil foi direcionado a uma conta reserva exigida pela Caixa, e quais as implicações para o Corinthians
O torcedor do Corinthians se surpreendeu com o bloqueio de parte da premiação da Copa do Brasil, situação que reacende dúvidas sobre o pagamento da Arena em Itaquera e o controle das receitas do clube.
Diretoria e Caixa apresentam versões diferentes: o clube afirma que houve antecipação de receitas, enquanto o banco alega cumprimento de cláusulas contratuais firmadas em 2022.
Os detalhes do mecanismo que levou à retenção, e o tamanho das garantias exigidas, constam no contrato e foram checados pela reportagem, conforme informação divulgada pelo Estadão.
O que foi retido e de onde veio o dinheiro
O bloqueio de R$ 35 milhões realizado pela Caixa incidiu sobre a premiação recebida pelo clube depois da conquista, movimentação que deixou parte do valor fora do alcance da diretoria. O Corinthians recebeu R$ 77 milhões da CBF pela conquista do título da Copa do Brasil. Aproximadamente metade foi reservada para pagar o ‘bicho’ aos jogadores, e o restante seria usado para compromissos do início do ano.
Como funciona a conta reserva exigida pela Caixa
O valor foi direcionado a uma conta reserva, um fundo criado pelo acordo com a Caixa, cuja titularidade é do Corinthians, mas cuja movimentação só pode ser feita pelo banco. O mecanismo existe para garantir o pagamento das obrigações se outras receitas falharem.
Segundo o contrato, ao qual o Estadão teve acesso, a conta deve acumular recursos equivalentes a quatro parcelas trimestrais de amortização do principal e juros. A alimentação dessa reserva ocorre prioritariamente por 50% dos recebíveis de premiações e 30% dos valores brutos de venda ou transferência de atletas.
O clube tinha até 31 de dezembro de 2025 para consolidar o saldo exigido. O valor de cada parcela varia de R$ 20 a R$ 30 milhões, dependendo da taxa de juros, por isso a conta precisa manter entre R$ 80 e R$ 120 milhões. A quantia da Copa do Brasil integrou a última parcela do ano, e o próximo pagamento está agendado para março.
Por que a Caixa alega ter direito ao bloqueio
Ao identificar que o saldo mínimo exigido não foi mantido, o contrato prevê mecanismos de proteção. Caso não haja recomposição em até 90 dias após notificação, configura-se um evento de inadimplemento, autorizando a Caixa a bloquear saldos em outras contas do projeto e a declarar o vencimento antecipado da dívida.
Por isso, juridicamente, a retenção é tratada pelo banco como cumprimento das metas de liquidez pactuadas. A diretoria do Corinthians, por sua vez, contesta a retenção e afirma que a Caixa estaria antecipando o pagamento de juros de 2026 com receitas de 2025.
Impacto nas finanças do clube e nas garantias da Arena
A dívida total do Corinthians atualmente é de R$ 2,7 bilhões. Do montante, aproximadamente R$ 650 milhões se referem à dívida com a Caixa pelo financiamento da Arena em Itaquera. Para assegurar o pagamento, foram dadas garantias que vão de participações acionárias a ativos imobiliários, incluindo a alienação fiduciária da sede social e do imóvel do Parque São Jorge.
O fluxo de caixa vinculado ao financiamento inclui repasse escalonado da bilheteria, fixado em 50% até 2024 e elevado para 55% entre 2025 e 2027, além da integralidade das receitas de naming rights e dos direitos de transmissão. Essas cláusulas ampliam o controle do banco sobre receitas essenciais do clube, e explicam por que a retenção de parte da premiação foi executada pela Caixa.
Em resumo, o bloqueio não foi um simples congelamento de recursos, mas uma ação prevista no acordo de 2022 para garantir liquidez para amortizações, e a quantia de R$ 35 milhões foi alocada à conta reserva como parte desse mecanismo de proteção contratual.
